A relação entre meros e lagostas é um tema que frequentemente desperta dúvidas entre pescadores e comunidades costeiras. Afinal, se os meros se alimentam de lagostas, eles poderiam ser responsáveis pela redução das populações desse importante recurso pesqueiro? Vem com a gente descobrir o que as pesquisas têm mostrado.
O que os meros comem
Embora a lagosta faça parte da dieta do mero, ela está longe de ser seu único alimento. O mero come o que encontra no ambiente. Isso acontece porque os meros são predadores oportunistas.
De acordo com Matheus Freitas, pesquisador do Projeto Meros, “por serem peixes de comportamento relativamente lento, costumam caçar de emboscada, e assim aproveitam o que está mais disponível e fácil de capturar. Por isso, quando há grande disponibilidade de lagostas, é natural que elas apareçam com mais frequência na dieta desses peixes. O mesmo acontece com outros organismos marinhos consumidos pela espécie.”
Assim, encontrar muitos registros de lagostas na alimentação dos meros pode indicar justamente o contrário do que muitos imaginam: pode ser um sinal de que existe uma população abundante de lagostas naquele local.
Por que estudar a alimentação dos meros?
Conhecer a dieta de uma espécie é fundamental para compreender seu papel ecológico. Esses estudos ajudam a entender como os hábitos alimentares mudam ao longo da vida do animal, como variam entre as estações do ano e como estão relacionados à disponibilidade de recursos no ambiente.
As informações sobre alimentação também fornecem informações sobre as relações entre diferentes espécies, as redes alimentares e fornecem pistas sobre mudanças na qualidade e na dinâmica dos ecossistemas marinhos.
No caso de uma espécie predadora de grande porte como o mero, conhecer sua alimentação também contribui para entender sua importância no equilíbrio das comunidades marinhas e os efeitos que mudanças em suas populações podem causar sobre outras espécies.
Todas essas informações são essenciais para o planejamento de estratégias de conservação.
Como sabemos que os meros comem lagostas?
Uma das formas é a análise do conteúdo estomacal do indivíduo. Observações feitas por pescadores também contribuem para o conhecimento sobre os hábitos alimentares do mero. Durante capturas acidentais, muitos relatam que os peixes chegam a regurgitar presas recentemente ingeridas, fornecendo informações valiosas sobre sua alimentação.
Então, os meros são responsáveis pelo desaparecimento das lagostas?
Não há evidências de que os meros sejam responsáveis pelo declínio das populações de lagostas, ou de qualquer outra espécie.
“Meros e lagostas convivem nos oceanos há milhares de anos e evoluíram juntos dentro dos ecossistemas marinhos. No passado, quando as populações de meros eram muito mais abundantes do que as atuais, não foram observados colapsos das populações de lagostas causados pela predação natural.
Os fatores mais associados à redução das populações de lagostas são a pesca ilegal ou realizada sem manejo adequado, a sobrepesca e as alterações na qualidade dos ambientes marinhos, que afetam diretamente a sobrevivência e a reprodução dessas espécies.” declara Matheus Freitas.
Compreender essas relações ecológicas é fundamental para evitar interpretações equivocadas e garantir que as ações de conservação sejam direcionadas às verdadeiras causas dos problemas enfrentados pelos ecossistemas costeiros.
É por meio das pesquisas realizadas pelo Projeto Meros do Brasil que informações como essas são produzidas e ajudam a ampliar o conhecimento sobre a espécie e os ambientes onde ela ocorre. O Projeto Meros do Brasil é patrocinado pela Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
Crédito da fotografia: Áthila Bertoncini