Podendo atingir mais de 2 metros de comprimento e pesar cerca de 400 kg, o mero (Epinephelus itajara) é considerada a maior garoupa do Atlântico, ocorrendo do Amapá até Santa Catarina na costa brasileira. No passado, foi um importante recurso pesqueiro, contudo, devido à intensa pesca e degradação de seus ambientes (habitats), suas populações sofreram declínios. Desta forma, a captura, transporte, beneficiamento e comercialização foram proibidos no Brasil desde 2002.
Essa espécie atinge a fase adulta com aproximadamente 100 a 120 cm de comprimento total; portanto, indivíduos abaixo desse tamanho são considerados jovens. Os meros adultos são encontrados em ambientes marinhos, como recifes de coral, costões rochosos, naufrágios e estruturas de petróleo e gás. Mas onde estão os meros jovens?
A espécie é considerada estuarino-dependente em seu estágio juvenil, então durante as fases iniciais de vida, as larvas, originadas de agregações reprodutivas em ambiente marinho, são transportadas por correntes e pela força das marés em direção aos estuários, especialmente às regiões de manguezal. Nesses locais, abrigam-se entre as raízes de mangue, onde encontram proteção e alimento, permanecendo por cerca de 5 a 6 anos até amadurecerem e se tornarem adultos. Após esse período, os indivíduos migram para ambientes marinhos. Esse padrão evidencia que o ciclo de vida do mero está fortemente associado à conectividade entre estuários e o ambiente marinho.
Entretanto, esse comportamento não é uniforme em toda a área de distribuição da espécie. No Brasil, por exemplo, há importantes variações regionais. Registros de indivíduos jovens de Epinephelus itajara ocorrem em estuários ao longo de toda a costa, do Norte ao Sul do país. Contudo, em alguns estados do Nordeste, é possível observar indivíduos jovens, com entre 30 e 60 cm de comprimento, em recifes costeiros, fora dos estuários. Em contraste, na região Sul, os meros parecem permanecer por mais tempo nos estuários, migrando para áreas marinhas apenas quando estão próximos do tamanho de maturidade.
Isso levanta uma pergunta importante para ciência: por que, no Nordeste, os meros migram mais cedo para os ambientes marinhos?
Essa é uma das perguntas que o Projeto Meros do Brasil, patrocinado pela Petrobras e pelo Governo Federal por meio do Programa Petrobras Socioambiental, busca responder por meio de seus estudos. Embora a resposta ainda não seja clara, um ponto é evidente: as fases iniciais de vida da espécie demandam atenção prioritária para sua conservação, seja no estuário ou ambientes recifais. É fundamental proteger os meros jovens e seus habitats, permitindo que completem seu ciclo de vida. Isso representa um passo essencial para a recuperação da espécie.
Nas pescarias esportivas realizadas em estuários ou próximas a recifes costeiros, meros jovens são eventualmente capturados de forma acidental, o que muitas vezes gera satisfação ao pescador pela captura de um peixe atualmente considerado “raro”. No entanto, é fundamental adotar boas práticas nessas situações, manejando o animal com cuidado e garantindo sua devolução ao ambiente em condições saudáveis. O pescador esportivo pode desempenhar um papel relevante na proteção dos meros jovens, compartilhando registros com o Projeto Meros do Brasil, atuando como um aliado na conservação do meio ambiente e acessando o Guia de boas práticas de pesque e solte disponível aqui no nosso site.
Foto da capa: Adison Albuquerque