O litoral de Alagoas abriga ambientes marinhos de grande beleza e importância para a população, como estuários, manguezais, lagoas, recifes de coral e naufrágios históricos. Esses ambientes sustentam atividades como o turismo e a pesca, mas ainda são pouco conhecidos pela ciência e pela maioria dos brasileiros.
Nesse cenário, as unidades de conservação têm um papel fundamental, com destaque para a Reserva Extrativista Marinha Lagoa de Jequiá e as Áreas de Proteção Ambiental Costa dos Corais e de Piaçabuçu. Essas áreas ajudam a proteger espécies ameaçadas, como corais, tartarugas marinhas, peixe-boi, golfinhos e o mero (Epinephelus itajara), um dos maiores e mais ameaçados peixes dos recifes brasileiros.
Em mergulhos científicos recentes no litoral alagoano, pesquisadores do Projeto Meros do Brasil, patrocinado pela Petrobras e pelo Governo Federal por meio do Programa Petrobras Socioambiental, e do Programa de Pós Graduação em Diversidade Biológica e Conservação nos Trópicos (PPG DIBICT) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) realizaram um grande achado para a conservação: o primeiro registro científico de uma agregação de meros em Alagoas e um dos poucos conhecidos no Nordeste brasileiro.
As agregações são grandes concentrações de peixes em um mesmo local, geralmente ligadas à alimentação ou à reprodução. Como o mero está criticamente ameaçado de extinção no Brasil, a descoberta tem enorme importância para a conservação da espécie.
Durante mergulhos científicos, pesquisadores do Meros do Brasil e da UFAL Penedo, com apoio do Projeto Corais de Alagoas, EcoScuba (Escola e Operadora de Mergulho) e do conhecimento dos pescadores locais, confirmaram a presença de mais de 15 meros adultos, medindo entre 1,6 e 2,3 m de comprimento, em uma área com cerca de 35 m de profundidade. Além dos meros, também foram registrados a presença do peixe-leão e do coral-sol, – espécies invasoras -, e de redes fantasmas, materiais de pesca perdidos, descartados ou abandonados que continuam capturando animais marinhos.
Por que o registro, além de inédito, é importante?
“O registro científico é muito importante porque amplia o conhecimento sobre áreas estratégicas para a conservação do mero no litoral brasileiro. Essas agregações tornam os meros, classificados pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) como criticamente ameaçados de extinção, mais vulneráveis à pesca ilegal e poluição, reforçando a necessidade de proteção desses ambientes” explica Cláudio Sampaio, professor e coordenador do Projeto Meros do Brasil em Alagoas.
Além de sua importância ecológica, o mero também possui valor econômico para o turismo de mergulho. Conhecido pelo comportamento dócil e curioso, o peixe pode ultrapassar 2,5 m de comprimento e chegar a mais de 450 kg, atraindo mergulhadores interessados em observá-lo em seu habitat natural. Apesar disso, a área onde a agregação foi registrada ainda não está protegida por nenhuma unidade de conservação, o que aumenta a preocupação com sua preservação.
O registro também destaca a importância das pesquisas científicas e das ações de educação ambiental realizadas no litoral alagoano pelo Projeto Meros do Brasil, sediado na UFAL Penedo. Essas atividades, coordenadas por Cláudio Sampaio, contribuem diretamente para a proteção da biodiversidade marinha e fazem parte das pesquisas de doutorado de Marcio Lima Jr., supervisor de pesquisa do Meros, e do mestrado de Amanda Valadão, ligados aos programas de pós-graduação da UFAL.
O registro da agregação reforça que o litoral de Alagoas ainda guarda importantes segredos da vida marinha e mostra como a ciência, aliada ao conhecimento dos pescadores, é essencial para a conservação do mero e dos ecossistemas costeiros.
Texto: Cláudio Sampaio, Márcio Lima Jr. e Tiago Albuquerque
Imagem: Guido Grimaldi