O registro de um mero com 1,20 m de comprimento nas águas cristalinas de Alagoas, feito durante o Carnaval, chamou a atenção e virou notícia nacional. O tamanho impressiona, mas o que realmente torna esse peixe especial é sua importância ecológica e o risco real de desaparecer dos mares brasileiros.
O mero (Epinephelus itajara) é um dos maiores peixes recifais do Oceano Atlântico, podendo atingir até 2,5 m de comprimento e ultrapassar 400 kg. Seu nome científico “itajara”, vem da família de línguas tupi e quer dizer “senhor das pedras”. Apesar do porte imponente, é conhecido como um “gigante dócil”: apresentando comportamento curioso, muitas vezes aproximando-se de mergulhadores, em ambientes recifais. Em algumas localidades são verdadeiras atrações turísticas, atraindo visitantes que fazem selfies e muitas imagens com o senhor das pedras.
Até o fim do século passado, era comum de Norte a Sul do Brasil. Hoje, tornou-se raro. A degradação dos manguezais e recifes, a poluição e décadas de pesca intensa, somadas a características biológicas, como a maturação sexual tardia (só começam a reproduzir com 1, 2 m de comprimento, quando possuem aproximadamente 7 anos de idade) e a ocorrência previsível nos ambientes recifais, que facilita sua captura, levaram a espécie ao declínio de suas populações no Oceano Atlântico.
Protegido por lei
No Brasil, o mero está classificado como Criticamente Ameaçado de extinção. Desde 2002, sua captura, transporte e comercialização estão proibidos por lei.
A proteção da espécie tem sido fortalecida especialmente pelo Projeto Meros do Brasil, patrocinado pela Petrobras e pelo Governo Federal por meio do Programa Petrobras Socioambiental e realizado pelo Instituto Meros do Brasil. Há 24 anos, o projeto desenvolve pesquisas e ações de conservação voltadas à espécie, abrangendo atualmente cerca de 1.500 km da costa brasileira, em nove estados da costa.
Meros em Alagoas
Em Alagoas, as ações são realizadas desde 2018 em parceria com a Universidade Federal de Alagoas, sob coordenação do professor Cláudio Sampaio, onde são desenvolvidas atividades de educação ambiental, pesquisas e apoio à políticas públicas voltadas à conservação do mero e de seus habitats.
Nesta última semana, a equipe do Projeto Meros do Brasil de Alagoas realizou registros importantes que repercutiram nacionalmente. Meros de diferentes tamanhos vêm sendo observados vivos nos recifes alagoanos por meio de mergulhos científicos, com indivíduos entre 0,5 m e 1,80 m de comprimento, surpreendendo pelo porte e pela serenidade diante dos mergulhadores.
Os pesquisadores vêm há anos mapeando áreas de ocorrência e monitorando esses locais. Os novos registros reforçam a importância dos ambientes recifais e dos manguezais (berçário dessa e de outras espécies) alagoanos, evidenciando a necessidade de conservá-los, fortalecendo as áreas marinhas protegidas, como Áreas de Proteção Ambiental e Reservas Extrativistas, além de respeitar a legislação vigente, apoiando atividades de turismo sustentável e a ciência.
Contudo, apesar da proibição, o mero ainda é alvo de pesca e comercialização ilegal, enquanto seus habitats seguem sofrendo com degradação e poluição. “Contribuir para a recuperação da espécie e conservar seus ambientes são nossos principais objetivos, mas isso também depende do apoio da sociedade, especialmente para que não haja pesca nem consumo dos itajaras. Conservando hoje, acreditamos que, no futuro, mergulhar com um animal tão majestoso será uma experiência possível para qualquer pessoa que deseje conhecer de perto o senhor das pedras”, ressalta Márcio Lima Jr, supervisor de pesquisa do Projeto Meros do Brasil.
Vídeo da capa: Márcio Lima